Terça-feira à noite, véspera de feriado em São Paulo, combinamos – eu, Felipe Castro, Leandro Iamin e Ronald Sony – de ir para São José dos Campos ver o que estava realmente acontecendo na reintegração de posse da comunidade conhecida como Pinheirinho.
Os relatos que vinham de lá eram divergentes e aterrorizantes. Chegamos a ler que a Rota estava roubando corpos em um hospital. Estávamos inquietos diante dos inúmeros boatos e com tantas fotos de militares lutando com gente de chinelo. Sem patrão, sem missão, sem pauta, prontos para ver e conversar e sentir, fomos para lá na quarta-feira.
O que vimos machucou. O que fotografamos não reproduz a força de certas imagens, olhares e gestos das pessoas desabrigadas. Aquela gente está perdida. E se as coisas não mudarem, os próximos seremos nós mesmos. Nós registramos isso:
Leandro Iamin – Antes de propor para amigos que fossem comigo ao Pinheirinho ao invés de aproveitar o feriado de São Paulo, cheguei a dialogar com minha preguiça e minhas pendências. Perderam, dessa vez perderam. Me surpreendi que todos com quem falei, quiseram ir de imediato. Acho que tenho bons amigos. Na escalação final em São José dos Campos, Leandro Iamin, Felipe Castro, Camilla Feltrin e Ronald Sony. E o sol.
O que encontraríamos já era deduzido. Um cenário caminhando para seu desfecho prático, uma atividade “controlada” e um recomeço caótico às pessoas de bem que por anos moravam na área ilegal. A PM fazia barreiras ao redor do gigantesco terreno. Não sabiam explicar o motivo, uma vez que nada além do sol oferecia perigo. Quando conseguimos chegar no “portão” do “Residencial Pinheirinho”, vimos cerca de 40 pessoas à espera de entrar no terreno, buscar suas coisas e se mandar. Para onde? Que coisas? Às perguntas.
Os olhares eram vermelhos, molhados, cansados. Peles oleosas, vozes desafinadas. Ali, o retrato de quem tinha o que buscar. Citavam má fé policial, destrato com o combinado, violência, humilhação e morte. De criança inclusive. Na igreja teria morrido uma menina atingida por bomba. Não embarquei nessa, embora creia que ninguém morrer nessa operação se deve mais à sorte que ao cuidado da PM.
Vem um policial, sobe na guia como se fosse palanque, e explica: ninguém mais entra, a não ser que contrate um caminhão para pegar os pertences. Óbvio discurso ardiloso e cruel para quem não tem nem R$ 10. Ao mesmo tempo, ganhamos autorização pra entrar na cidade do Pinheirinho – vimos pouco depois que o discurso do oficial caiu por terra e alguns puderam ir às casas com Kombi da Prefeitura.
Andar pelo Pinheirinho me lembrou Moçambique, Uganda, Ruanda ou outro país africano. As ruas grandes, largas, os quintais generosos e os portões de madeira. A terra batida seca a boca. Policiais pixam paredes com um “V” em verde. É a sentença de morte dos barracos. Cor e letra nos intrigam. Paro na sombra de uma enorme árvore, encosto no portão e finjo ser o dono da casa. Vejo então o barraco do meu vizinho ser trucidado. Nem 30 segundos para uma máquina laranja destruir, fazer pó. Logo a casa de uma senhora cujo jardim era tão belo e bem cuidado. Tenho queda por plantas, lembro sempre de minha mãe e seu desejo por ter um espaço assim tão bem cuidado. Agora, um jardim a menos.
Corre um cachorro e se esconde atrás do meu portão. É receptivo ao meu carinho mas não do policial, que chega pedindo que o ajude a dispersar o cão. Dispersar o cão. Dispersar o cão. Foi bonitinho o PM pegar o bichinho pela coleira e caminhar com todo carinho. Fingi que acreditei que é sempre assim quando ninguém vê. “É duro ver mães com filhos no colo”, contou o fardado. Um bom bordão.
A destruição já estava vista, com direito a jegue preso e uma moça buscando coisas deixadas para trás por outros moradores. Um muy humano caminhão passou e me deu água. Dois copos. O segundo dei a uma senhora desesperada que não acalmava o próprio cachorro. São sempre muito sábios, esses cachorros. Era a hora de ver onde foram parar os ex-moradores. Dei um aceno sinceramente doído ao pintor de cabelo oxigenado que continuava na porta da cidade. Bem articulado, me disse que está trabalhando em um prédio e quando for pintar andares altos, pensará em pular e acabar com tudo. Espero que seja exagero.
Quisemos perguntar à polícia a razão de tantas barreiras, se só 40 ou 50 pessoas derrotadas e fracas se mantinham ali. Perdemos uma hora na espera e companhia do Capitão Antero, o mais minucioso entrevistado que já vi, detalhista, atencioso, um querido.
Antes de sermos levado à sala de aula que virou sua, um oficial nos deu quatro garrafas geladas de água. “Toma, não é fácil pra ninguém”. Diante do bullyng que um tal “SOBRANCELHUDO”, que suponho ser aluno da escola, sofreu no quadro negro, o clima era de calma e seriedade. Com anotações toscas de caneta, Cap. Antero tirou óculos, chapéu, e explicou todos os passos da polícia e da humanidade, desde o Big Bang até o dia da Operação Pinheirinho. Após a “rápida” explicação, comentou conosco sobre a missão jornalística de ter credibilidade. Me senti ameaçado a fazer um bom trabalho.
O que Antero falou de relevante: ninguém morreu, ninguém se feriu gravemente, a população sabia que haveria a invasão (inclusive tomou uma chuva com milhares de panfletos atirados de um helicóptero citando isso), a PM não discute, cumpre, o foro de discussão é outro, ela vive da palavra “cumpra-se”. Tal informação não é novidade, mas ninguém tinha me dito isso com tanta amizade, simpatia, carinho até.
Saindo de lá lembrei de muitos jornais e revistas, e televisões e jornalistas desempregados, que fazem o mesmo que a PM. Vivem do “cumpra-se”, não discutem, fazem. E embora Antero tenha, sim, entrado no mérito de discutir a legalidade dos moradores ilegais, dando até exemplos de sujeitos desonestos do Pinheirinho, a resposta “o foro de discussão não é comigo” apareceu sempre que lhe interessou.
Ouvimos moradores afirmarem que queriam uma casa regularizada e a Prefeitura mandou esperar. A Prefeitura não é capaz de resolver o caso de todos, há o déficit habitacional, famoso no país da especulação imobiliária, mas, noves fora, ninguém para quem fiz a pergunta respondeu diferente: “sei que o Pinheirinho era ilegal, mas o que podia fazer?”. Bingo. Esperar a Prefeitura dar uma casa? Trabalhar e vencer na vida? É preciso vencer na vida para ter onde morar? A vida é vencer? Eis uma discussão interminável.
O complemento de nossa viagem foi achar o grosso dos desalojados. Na igreja, famílias esparramadas em sombras esperavam a hora de irem embora dali. O pastor, que bastante ajudou, recebeu a “orientação” de não mais abrigá-los em sua paróquia. Estavam indo para dois ginásios, disse o representante da igreja, mas tenho para mim que haviam mais alojamentos. Fomos ao maior ginásio. Muito colchão, uma minúscula mesa com medicamentos e uma maior com roupas para doação, parte delas arrumadas pela Gaviões da Fiel de São José dos Campos. O calor lá dentro era incômodo. Calculo entre 300 e 400 desalojados ali.
Uma criança com uma bandeira de movimento sindical me cutuca até que eu, do outro lado da grade, brinque com ela. Gargalha de cada gesto que eu faço. Dou três minutos de um bom dia pra ela. Boatos de que aquele povo será dividido em mais dois alojamentos preocupam todos. Curiosamente, ninguém quer sair do ginásio. Sentem que aquilo é o melhor que podem receber, possivelmente. Converso com Luiz, um negro de 35 anos, que se diz um dos líderes da comunidade.
Ele não confirma mortos, mas confirma 8 desaparecidos. Confirma que filhos foram separados de mães. Confirma que o que ocorreu é diferente do que a polícia disse que seria (Capitão Antero chamou isso, na entrevista, de “fator surpresa” necessário para qualquer profissão). E afirmou, com queixo duro de quem está no limite, que se Marrom, o líder da comunidade, disser que sim, todos se voltam e se rebelam e lutam com a polícia e o sangue correrá.
Pois bem. na minha cabeça vieram os restos do Pinheirinho cercados por, segundo Cap. Antero, cerca de 1.700 policiais. Todos aparentemente bem almoçados (Luiz alegou comer arroz, purê e salsicha desde domingo). Que rebelião poderia haver a esta altura? Nenhuma, concluo. Protestos vão acontecer ainda, achei inclusive gente da USP no alojamento, que foi prestar solidariedade. Mas explodiram prédios no Rio de Janeiro, semana que vem outra coisa acontece, e a atenção popular é dispersada tal qual os ex-pinheiristas serão espalhados para nunca mais se reencontrarem.
E no fundo é tudo mais duro que isso. Não vimos violência policial, no máximo suas consequências. Vimos só o começo de um longo sofrimento de desalojados. Nosso recorte temporal é impreciso, quase atrasado, e não é por isso que deixa de ser evidente a forma desastrada com que tudo foi feito. Nada ali está digno, e eu ainda acredito em cada violência – nem tanto mais nas mortes – que ouvimos dos moradores desde domingo.
As crianças só querem um cantinho onde haja sorriso e outras crianças, só os cachorros sabem de verdade quem mente e quem não, e a viagem de volta foi reflexiva e triste na essência da palavra. É triste. Antes do último abraço, dei duas notas de dinheiro nas mãos de Felipe Castro. Quisera poder dar as mesmas notas a cada um lá no Pinheirinho. Mas o dinheiro não é a solução. É justamente o problema.
Camilla Feltrin – Rostos semelhantes a aqueles eu só vi uma vez num velório de uma pessoa querida. É aquele choro ao ponto das pálpebras ficarem avermelhadas. Mas era só semelhante. Aquelas pessoas, além da cara de desespero acabavam de perder absolutamente tudo.
Dona Josefa, magrinha e com menos de 1,50 m, beirando os 80 anos estava alojada na igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Ela faz parte de um grupo de umas 40 pessoas que estavam em frente do que sobrou da entrada da comunidade do Pinheirinho na manhã de quarta-feira, 25 de janeiro. Os pertences deles ainda estavam lá dentro.
Ela é costureira e estava preocupada com as máquinas overloque e a reta que estavam na casa. O medo é que não conseguissem retirar os pertences antes que a casa fosse demolida. Para retirar as coisas elas precisavam de um caminhão particular, cotado por R$ 450 a viagem. O caminhão da prefeitura apenas estava transportando as coisas até um galpão. Os netos de Dona Josefa foram levados para casa de uma parente em uma favela em São Paulo. Dionísia, a filha, estava lá sem saber o que fazer e sem alguma perspectiva de futuro. Falava que era melhor se tivesse matado todo mundo, evitando, assim, um sofrimento geral.
Andreia foi parar no Pinheirinho em 2004 quando o marido foi preso. Como não tinha mais dinheiro para pagar o aluguel, ela e os seis filhos se mudaram para o terreno. Ela também não tinha mínima ideia do que fazer da vida. A outra grande preocupação dela é com a filha de 15 anos grávida de sete meses e dormindo em abrigo. Luis Carlos, um de seus genros, falou com o sotaque caipira que todo o investimento dele foi para construção da casa. Outro crash promovido por Naji Nahas. Crash de vidas e não de ações.
Um pintor de vinte e poucos anos, negro com cachos descoloridos estava revoltado por terem derrubado a casa que ele construiu aos poucos, e, principalmente, o quarto da filha pequena. “Ela vai crescer e me perguntar porque eu deixei eles fazerem isso”, falava. Ele também estava temoroso com o que fariam da imagem dele, trabalhador, porém ainda pobre. Não era bandido, só não tinha dinheiro o suficiente para comprar uma casa ou pagar um aluguel. Ele é pobre. Ele é filho de pobres. A filha dele também é pobre. Agora, morando numa quadra poliesportiva, são mais pobres ainda.
Esses são os recortes de dramas pessoais, que juntos com outros tantos mil se tornam um problema social. Eles precisam de mais coisa além de casa, mas moradia é o mínimo para desenvolvimento de uma pessoa.
As ruas da comunidade eram de terra batida e formada por vários tipos de casas, todas muito humildes. Umas de madeirite, outras de alvenaria. Como o terreno é gigante, as casas não são espremidas, todas tinham um quintal, árvores, plantas.
Quando estava lá, vi uma mulher juntando coisas achadas em meio aos escombros num carrinho improvisado numa caixa d’água. “‘Filha, aqui tem muito cobre, latão, alumínio…”.
Junto com meus colegas falei com o Capitão Antero, responsável pela operação. Ele explicou que a Polícia Militar planejava essa reintegração desde o começo de novembro de 2011. Disse também que os policiais são treinados psicologicamente para esse tipo de coisa. “Sempre estamos acostumados a trabalhar em eventos de grande porte, como jogos de futebol com torcidas organizadas. Aqui foi uma operação normal”, considerou.
Eu e meus colegas queríamos arrancar alguma confissão mais humana dele. Será que ele não se comovia com tanta gente miserável, idosos e crianças sendo jogados das casas para um… ginásio?
A conversa durou 40 minutos, mas poderia ser resumida em duas frases: “Não há conversa conosco, a Polícia não é fórum de discussão. Nós obedecemos o judiciário”. O problema vem de cima. O problema é o poder na mão de gente irresponsável. Desocupam um terreno e deixa milhares de pessoas jogadas em uma quadra.
O que seria a prioridade: o direito à moradia ou o lucro da tal massa falida? A PM não precisa pensar nisso. Precisa apenas agir.
Sargento Zago que acompanhava algumas destruições de casas comentou, em meio o monte de entulhos. “Doi o coração ver mãe com filho no colo chorando. Todo mundo tem direito a ter uma casa, mas é isso que eu tenho que fazer”. Pareceu um desabafo humano dentro o homem de farda. E parece ainda que dentro de uma farda não cabe um coração. A PM não precisa pensar, sentir e nem concordar. Precisa trabalhar. Precisa agir. Precisa obedecer.
Uma vez li o termo “fantoche de sistema”, parece se encaixar nesse caso. Isso também era muito perceptível entre os sem terra: eles têm consciência de que a polícia cumpre ordens. Xingavam a juíza e o prefeito. Quanto ao dono da terra, eles tinham ouvido falar que é “parece que é de um ladrão aí”.
A ação não foi avisada e surpreendeu os moradores às 6h de um domingo enquanto todos dormiam. “O fator surpresa é estratégico e fundamental para uma ação dessas”, contou o Capitão ao explicar que se tivessem avisado previamente, a reintegração não teria o sucesso que teve. Ação de guerra. O grupo inimigo é composto por crianças, idosos e gente trabalhadora. O front era a casa deles.
Como eu disse para o Luis Carlos, o desabrigado que queria ver minhas anotações: o caso Pinheirinho está fazendo muito barulho na internet. Espero que isso possa ajudar de alguma forma. Não sei qual, mas de alguma eu acho que ajuda.
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