O maior dos maiores

Essa citação é de Vinicius de Moraes ao definir o poeta francês Arthur Rimbaud. Não duvido de nada disso depois de ter lido “Uma temporada no inferno”, indicado por um professor substituto de literatura na quinta-série.

No Brasil, quando se fala em cinema, a resposta é quase uníssona: é o Glauber Rocha, inventor do cinema novo e da famigerada “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Cinema com luz estourada, de pouco orçamento e de crítica social. Assim é Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e todos os outros.

Igualmente engajados estão os cineastas do chamado Cinema Marginal, com destaque ao maior dos maiores: Rogério Sganzerla.

Sem dinheiro, às vezes até mesmo sem roteiro, e com uma crítica que parece ter sido feita ontem para o Brasil consumista alienado e, por isso, exclusivamente a isso, feliz. Ué, não seria um cinema retratando a ascensão da classe c dos anos 2010? Não. Foi feita nos anos 60 e 70. Em preto e branco, proibido, com as falas passadas por cima da gravação. Montado em negativo por negativo. O signo do caos, é o próprio caos.

Os filmes de Sganzerla são daqueles que eu gostaria de descrever cada uma das cenas, mas isso é maçante. Vale a pena dizer que é um filme feito com palavras certeiras. Únicas. Precisas. Naturais. Poéticas. E todas elas juntas formam uma crítica extraordinária.

 “O ponto de partida de nossos filmes deve ser a instabilidade do cinema – como também da nossa sociedade, da nossa estética, dos nossos amores e do nosso sono”, Rogério Sganzerla 

Mais do que isso. Gostam de falar em “estética” quando se referem ao cineasta. Pode ser a falta do tripé ou “Angela, vou filmar tudo em preto e branco e só você em technicolor”

A mais popular das obras de Sganzerla é o Bandido da Luz Vermelha, inspirado no verdadeiro criminoso, mas que não segue a risca a trajetória de João Acácio. Sem Essa, Aranha, nós não precisamos de Deus e da fé, precisamos parar de achar legal esse folclore exagerado. “Tô com dor de barriiiiiiga” na favela é o “paga um Cuba Libre para mim?” na Praia Grande em A Mulher de Todos.

Toca Beatles, toca The Who, toca Roberto, toca Elvis, toca Jimmi Hendrix, toca Jorge Ben. Era uma rebeldia também musical. Dizem que o Sem Essa, Aranha nem roteiro tinha.

Muda o enredo, mas a crítica é a mesma; somos um bando de idiotas na terra do sol. Estamos vivendo no samba, na necrofilia e na saudade. E o que mais importa?

Sem Glauber Rocha, talvez Sganzerla não teria sido o maior do maiores. Helena Ignez era casada com artista baiano quando conheceu o catarinense de Joaçaba. Virou a musa de todos os filmes de Rogério. Musa absoluta, gestos concisos, segura, linda e loira.

A genialidade de Sganzerla, o rock’n'roll e o requebrado de Ignez. Isso que é cinema. Na biografia de Glauber Rocha, há uma briga descrita como que quando soube que seria deixado, Glauber jogou todas as roupas de Ignez para fora do armário. Luz, o personagem, também fez isso. Do mesmo jeito que bebe tinta depois de ter pichado “Joaçaba”.

Rogério faleceu em 2004 decorrente de um câncer. Deixou, porém, uma espécie de continuação do Bandido. Feito, produzido e estrelado por sua família. Ignez, a viúva, dirige. Djin, a mais nova, atua e Sinai, a mais velha, produz. Ney Matogrosso  é o protagonista.

Não há o que dizer do filme a não ser: eu ainda não vi, mas vou na esperança que seja tão rico quanto aos outros do clã Ignez- Sganzerla.

Fique com o recado;

“A mídia é igualzinha a língua da vizinha”

Por que os jornalistas estão adoecendo maisEle pode entrevistar, escrever, agendar, twittar, editar, mas “a falta de senso crítico do jornalista e o torna mais propenso a ser manipulado” e ” eles aceitam tudo e, de quebra, não gostam de política ou sindicato, o que provoca o enfraquecimento da entidade de luta dos trabalhadores”.

Fazendo pesquisas de opinião para o meu tcc, algumas das entrevistadas disseram que a mídia influência as mulheres a terem um corpão e seios fartos. Elas sentem essa pressão.

Vendo algumas capas de revistas, programas e sites, vemos que a mulher pautadas nessas publicações são independentes, bonitas, fazem exercícios para os glúteos e colocam silicone.

Ou seja, o modelo de mulher vendido é o da mulher modelo, atriz e demais profissões que lidam diretamente com imagem e beleza. E dependem disso. O que as pessoas esquecem, é que as mulheres do mundo normal, sem glamour e sem câmeras, trabalham em escritórios, hospitais, escolas, postos de gasolina, bingos, feiras, bancos, supermercados, linhas de produção. A mulher que não é vista na ficção trabalha mais com o intelecto, ou com o braço, e não diretamente com a imagem.

A beleza é uma luta de indicações. Cada hora é uma, mas de onde elas vem? Em 2009, as mulheres davam depoimentos incríveis da ração humana e até mês passado todo mundo estava falando das maravilhas da cápsula de óleo de coco . A TV mostrava isso. As revistas também. O modismo absurdo da vez é se alimentar por uma sonda no nariz (!!!!!!!!!!!!!!).

Ser independente e não depender de homem nenhum
Dos 15 entrevistados homens, todos disseram que preferem seios naturais aos siliconados. Uns ainda disseram que não namorariam ou casariam mulheres com silicone, apenas (sic) “comeria” ou “passaria algumas horas”.

Mesmo assim, as mulheres continuam a colocar e a desejar próteses (que até pouco tempo se restringia a deficientes e desdentados). Segundo Naomi Wolf, em O Mito da Beleza, a mulher faz isso não para agradar o parceiro, e muitas vezes nem ela mesma, mas sim ao Sistema, para se enquadrar nos padrões. A ideia de que todas as mulheres têm que ser bonitas e portarem o chamado “seio oficial”. Não ser gostosa é transgressão. 

E o Jornalismo, a Comunicação Social? Ele repete as ideias, ele, muitas vezes, não manipula. Ele faz parte do grupo dos manipulados

Quem escreve chamadas do tipo “barriga zero”, “bumbum sarado”, “cabelo liso”, “dieta do fim de semana” para revistas, sites, programas, etc também são mulheres já inseridas no mundo da beleza-custe-o-que-custar.

A imprensa não é crítica. Embora sempre traga um especialista analisando se a dieta é milagrosa ou não. Neste caso, ela é mais um meio de diversão e entretenimento. Também serve de porta-voz, do mito de beleza e que todas podemos ser iguais a Barbie com medidade 90 – 60 – 90. Só que não somos a Barbie e nem a Suzy.

Rose Meire Muraro classifica que a mulher moderna ocidental está “imersa em conceitos de beleza, ela é um escuro filão de ódio a nós mesmas, obsessões com o físico, pânico de envelhecer e pavor de perder o controle.” Foucault considera que o “corpo social” pode ser mudado, moldado, transformado por tecnologias e biopolítica.

A mulher moderna: risos.

A Comunicação Social, que deve ser responsável e ajuda a formar opinião da sociedade, repete o discurso da beleza. Mas quem cria o discurso da beleza? Seria a industria da beleza? Não sei. A mídia repete. Neste caso, não há sequer como cogitar uma “mídia golpista”. É uma mídia sem senso crítico, como dito no artigo do Observatório da Imprensa.

Não há senso crítico, mas há vendas. Anúncios, telespectadoras, leitoras, ouvintes. A roda do capitalismo se movimenta: mídia, silicone, médico, anestesia, sutiã pós cirurgia, academia, revista, televisão, creme. É muita coisa. 

Um resumo de São Paulo

Gente feia reclamando de gente feia.
Gente com nome ridículo rindo de gente com nome aportuguesado.
Gente burra reclamando de gente lerda.

Gente egoísta dirigindo.
Gente cega conduzindo.
(a) Gente sendo indigente.

A camisa branca do Thurston

Comecei a gostar do Sonic Youth a valer em 2006 quando assisti ao Claro Que É Rock! pela televisão. Aquelas microfonias da banda eram tudo que eu sempre quis ouvir. É como estar drogado ou bêbado sem usar nada. Sonic Youth é uma hipnose.

Três anos depois, em 2009, o Sonic Youth estava no Planeta Terra, no Play Center, e eu também. Que festival gostoso, confortável, perto e sem grandes multidões. Era show de divulgação do Incinerate. Ninguém tinha decorado muito bem as novas letras, mas foi maravilhoso.

Dois anos depois, a provável última apresentação da banda foi lá no SWU, em Paulínia. Longe, cheio de barro e de gente. Tocaram o que o público queria ouvir, mas estavam sérios. Havia um climão em cima do palco. Não pareciam felizes. Já estavam separados. Em comum, as últimas apresentações só tinha duas coisas: a garoa e a camisa branca do Thurston Moore. Semana passada eu ganhei ingressos do Trabalho Sujo para ver a apresentação do Thurston no Cine Joia, não chovia, mas a camisa dele era a mesma.

Planeta Terra, 2009 (foto: Bruno Gabrieli)

Lee, Kim e Thurston no climático SWU, 2011

Imagem de divulgação, camisa de trabalho

Haja alvejante

Thurston, passe na C&A (Cine Joia, abril 2012)

Sai da apresentação  num misto de euforia, cabeça atordoada com as microfonias (ele fez isso até com violão) e ofendida. Thurston, não se troca a mulher baixista diva underground por uma menina com um violino. Nem que seja só em cima do palco, não faça mais isso.

O sonho brasileiro e o meu

“Nessas condições, imóvel diante da grande miséria nacional, o otário só pode seguir dopado de sol, da cachaça e de magia, até um dia acabar de vez com essa nossa evidente necessidade do samba, da necrofilia e da saudade. (…) As forças sobrenaturais paralisando-nos. Nós, os fantasmas esfomeados do planeta”, narra Sganzerla enquanto a personagem de Helena Ignez passeia por Copacabana em um filme de 1970.

Passam 30 anos e continuamos a ser os esfomeados do planeta. Acima do peso, mas ainda esfomeados.  O estudo “O Sonho Brasileiro” traçou o perfil de sonhos, desejos e esperanças de jovens de 18 a 24 anos em todo Brasil: os jovens querem mais educação, comida eles já têm.

Eu, jovem de 18 a 24 anos, quase formada, só quero uma coisa:  viver sem trânsito. É uma luta.  E quem sabe em um mundo com menos trânsito não daria tempo para lutar por algo mais interessante. Mais tempo para viver, mais tempo para ler, mais tempo para aprender, mais tempo para pensar. Mais tempo, menos filas, menos samba, menos necrofilia, menos saudade e mais vida, por favor.

Retrato de uma geração

Uma imagem vale mais que mil palavras, mas quando a gente tá sem câmera temos que recorrer para as palavras mesmo:

Sexta-feira. 8h40. O trem mais vazio da parte da manhã que passa por Santo André. Segundo vagão, um dos menos cheios. Lugar nos fundos com duas cadeiras viradas de frente a outras duas. Do lado de lá, um rapaz de calça social preta riscada em branco, camiseta branca debaixo da camisa branca, notebook no colo e fone no ouvido. Do lado dele, uma negra, de cabelo power com as pontas levemente descoloriadas puxadas para o cobre, se maqueia e depois organiza uns papéis numa pasta no seu colo, sempre de fones de ouvido. Na frente dela, eu passo os olhos por um livro enquanto mudo de música no meu celular e conectado a mim por um fone. Do meu lado, um headbanger daqueles tradicionais: grande, cabeludo, barbudo e com a música vazando do fone.

O engomadinho desce em São Caetano. O rockeiro em Tamanduateí. A negra na Mooca e eu no Brás.

Um gênio ou uma besta?

Não há meio termo.

Se sexo é o que importa, só o Rock é sobre amor!

O mundo dá voltas e ontem a noite me veio a cabeça comparar Edgard Scandurra com Mr Catra. Um mito de cada geração. Um símbolo paulistano versus um símbolo carioca.

 

Enfim, a base para isso são duas músicas. Em Amor em BD e Vem Todo Mundo, a semelhança não fica só no monte de nomes femininos que as duas músicas começam. Seria o louco e doentio caso de amor narrado por Scandurra um namoro de putaria? Será que ele queria que ela rebolasse com tudo dentro, mas ele tinha ciumes?  Não, não, não

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Minha cabeça ainda dará um nó.

Non plus one

Em tempos de Lana Del Rey, Istant.gram e outras coisas dementemente fofas, vamos falar de Gia Coppola. Sim, a neta dele e sobrinha dela, também quer ser cinesta.

O Non Plus One, não tem ninguém menos que a sorridente Kristen Dunst como protagonista ao lado do charmoso Jason Schwartzman, que é tio dela também. É meio confuso.

A história é tão fofinha e bonitinha que nem dá para perceber que é um “video-release”  da grife Opening Ceremony. Se no Maria Antonieta, o Jason não era tão apaixonado pela Kristen, aqui ele está lembrando o apaixonado de 500 days of  Summer. A trilha sonora, que na verdade é uma única música, de Non Plus One é da Coconut Records, bandindie de Jason Schwartzman.

Gia também fez outro filme para a marca Target,  que mostra uma banda de meninas, a The Like, trocando de roupas no camarim.  Esse comercial (?) foi removido do Youtube, se um dia a internet voltar ao normal procure por Zac Posen for Target.


O que nós vimos e ouvimos em Pinheirinho

Terça-feira à noite, véspera de feriado em São Paulo, combinamos – eu, Felipe Castro, Leandro Iamin e Ronald Sony – de ir para São José dos Campos ver o que estava realmente acontecendo na reintegração de posse da comunidade conhecida como Pinheirinho.

Os relatos que vinham de lá eram divergentes e aterrorizantes. Chegamos a ler que a Rota estava roubando corpos em um hospital. Estávamos inquietos diante dos inúmeros boatos e com tantas fotos de militares lutando com gente de chinelo. Sem patrão, sem missão, sem pauta, prontos para ver e conversar e sentir, fomos para lá na quarta-feira.

O que vimos machucou. O que fotografamos não reproduz a força de certas imagens, olhares e gestos das pessoas desabrigadas. Aquela gente está perdida. E se as coisas não mudarem, os próximos seremos nós mesmos. Nós registramos isso:

Leandro Iamin – Antes de propor para amigos que fossem comigo ao Pinheirinho ao invés de aproveitar o feriado de São Paulo, cheguei a dialogar com minha preguiça e minhas pendências. Perderam, dessa vez perderam. Me surpreendi que todos com quem falei, quiseram ir de imediato. Acho que tenho bons amigos. Na escalação final em São José dos Campos, Leandro Iamin, Felipe Castro, Camilla Feltrin e Ronald Sony. E o sol.

O que encontraríamos já era deduzido. Um cenário caminhando para seu desfecho prático, uma atividade “controlada” e um recomeço caótico às pessoas de bem que por anos moravam na área ilegal. A PM fazia barreiras ao redor do gigantesco terreno. Não sabiam explicar o motivo, uma vez que nada além do sol oferecia perigo. Quando conseguimos chegar no “portão” do “Residencial Pinheirinho”, vimos cerca de 40 pessoas à espera de entrar no terreno, buscar suas coisas e se mandar. Para onde? Que coisas? Às perguntas.

Os olhares eram vermelhos, molhados, cansados. Peles oleosas, vozes desafinadas. Ali, o retrato de quem tinha o que buscar. Citavam má fé policial, destrato com o combinado, violência, humilhação e morte. De criança inclusive. Na igreja teria morrido uma menina atingida por bomba. Não embarquei nessa, embora creia que ninguém morrer nessa operação se deve mais à sorte que ao cuidado da PM.

Vem um policial, sobe na guia como se fosse palanque, e explica: ninguém mais entra, a não ser que contrate um caminhão para pegar os pertences. Óbvio discurso ardiloso e cruel para quem não tem nem R$ 10. Ao mesmo tempo, ganhamos autorização pra entrar na cidade do Pinheirinho – vimos pouco depois que o discurso do oficial caiu por terra e alguns puderam ir às casas com Kombi da Prefeitura.

Andar pelo Pinheirinho me lembrou Moçambique, Uganda, Ruanda ou outro país africano. As ruas grandes, largas, os quintais generosos e os portões de madeira. A terra batida seca a boca. Policiais pixam paredes com um “V” em verde. É a sentença de morte dos barracos. Cor e letra nos intrigam. Paro na sombra de uma enorme árvore, encosto no portão e finjo ser o dono da casa. Vejo então o barraco do meu vizinho ser trucidado. Nem 30 segundos para uma máquina laranja destruir, fazer pó. Logo a casa de uma senhora cujo jardim era tão belo e bem cuidado. Tenho queda por plantas, lembro sempre de minha mãe e seu desejo por ter um espaço assim tão bem cuidado. Agora, um jardim a menos.

Corre um cachorro e se esconde atrás do meu portão. É receptivo ao meu carinho mas não do policial, que chega pedindo que o ajude a dispersar o cão. Dispersar o cão. Dispersar o cão. Foi bonitinho o PM pegar o bichinho pela coleira e caminhar com todo carinho. Fingi que acreditei que é sempre assim quando ninguém vê. “É duro ver mães com filhos no colo”, contou o fardado. Um bom bordão.

A destruição já estava vista, com direito a jegue preso e uma moça buscando coisas deixadas para trás por outros moradores. Um muy humano caminhão passou e me deu água. Dois copos. O segundo dei a uma senhora desesperada que não acalmava o próprio cachorro. São sempre muito sábios, esses cachorros. Era a hora de ver onde foram parar os ex-moradores. Dei um aceno sinceramente doído ao pintor de cabelo oxigenado que continuava na porta da cidade. Bem articulado, me disse que está trabalhando em um prédio e quando for pintar andares altos, pensará em pular e acabar com tudo. Espero que seja exagero.

Quisemos perguntar à polícia a razão de tantas barreiras, se só 40 ou 50 pessoas derrotadas e fracas se mantinham ali. Perdemos uma hora na espera e companhia do Capitão Antero, o mais minucioso entrevistado que já vi, detalhista, atencioso, um querido.

Antes de sermos levado à sala de aula que virou sua, um oficial nos deu quatro garrafas geladas de água. “Toma, não é fácil pra ninguém”. Diante do bullyng que um tal “SOBRANCELHUDO”, que suponho ser aluno da escola, sofreu no quadro negro, o clima era de calma e seriedade. Com anotações toscas de caneta, Cap. Antero tirou óculos, chapéu, e explicou todos os passos da polícia e da humanidade, desde o Big Bang até o dia da Operação Pinheirinho. Após a “rápida” explicação, comentou conosco sobre a missão jornalística de ter credibilidade. Me senti ameaçado a fazer um bom trabalho.

O que Antero falou de relevante: ninguém morreu, ninguém se feriu gravemente, a população sabia que haveria a invasão (inclusive tomou uma chuva com milhares de panfletos atirados de um helicóptero citando isso), a PM não discute, cumpre, o foro de discussão é outro, ela vive da palavra “cumpra-se”. Tal informação não é novidade, mas ninguém tinha me dito isso com tanta amizade, simpatia, carinho até.

Saindo de lá lembrei de muitos jornais e revistas, e televisões e jornalistas desempregados, que fazem o mesmo que a PM. Vivem do “cumpra-se”, não discutem, fazem. E embora Antero tenha, sim, entrado no mérito de discutir a legalidade dos moradores ilegais, dando até exemplos de sujeitos desonestos do Pinheirinho, a resposta “o foro de discussão não é comigo” apareceu sempre que lhe interessou.

Ouvimos moradores afirmarem que queriam uma casa regularizada e a Prefeitura mandou esperar. A Prefeitura não é capaz de resolver o caso de todos, há o déficit habitacional, famoso no país da especulação imobiliária, mas, noves fora, ninguém para quem fiz a pergunta respondeu diferente: “sei que o Pinheirinho era ilegal, mas o que podia fazer?”. Bingo. Esperar a Prefeitura dar uma casa? Trabalhar e vencer na vida? É preciso vencer na vida para ter onde morar? A vida é vencer? Eis uma discussão interminável.

O complemento de nossa viagem foi achar o grosso dos desalojados. Na igreja, famílias esparramadas em sombras esperavam a hora de irem embora dali. O pastor, que bastante ajudou, recebeu a “orientação” de não mais abrigá-los em sua paróquia. Estavam indo para dois ginásios, disse o representante da igreja, mas tenho para mim que haviam mais alojamentos. Fomos ao maior ginásio. Muito colchão, uma minúscula mesa com medicamentos e uma maior com roupas para doação, parte delas arrumadas pela Gaviões da Fiel de São José dos Campos. O calor lá dentro era incômodo. Calculo entre 300 e 400 desalojados ali.

Uma criança com uma bandeira de movimento sindical me cutuca até que eu, do outro lado da grade, brinque com ela. Gargalha de cada gesto que eu faço. Dou três minutos de um bom dia pra ela. Boatos de que aquele povo será dividido em mais dois alojamentos preocupam todos. Curiosamente, ninguém quer sair do ginásio. Sentem que aquilo é o melhor que podem receber, possivelmente. Converso com Luiz, um negro de 35 anos, que se diz um dos líderes da comunidade.

Ele não confirma mortos, mas confirma 8 desaparecidos. Confirma que filhos foram separados de mães. Confirma que o que ocorreu é diferente do que a polícia disse que seria (Capitão Antero chamou isso, na entrevista, de “fator surpresa” necessário para qualquer profissão). E afirmou, com queixo duro de quem está no limite, que se Marrom, o líder da comunidade, disser que sim, todos se voltam e se rebelam e lutam com a polícia e o sangue correrá.

Pois bem. na minha cabeça vieram os restos do Pinheirinho cercados por, segundo Cap. Antero, cerca de 1.700 policiais. Todos aparentemente bem almoçados (Luiz alegou comer arroz, purê e salsicha desde domingo). Que rebelião poderia haver a esta altura? Nenhuma, concluo. Protestos vão acontecer ainda, achei inclusive gente da USP no alojamento, que foi prestar solidariedade. Mas explodiram prédios no Rio de Janeiro, semana que vem outra coisa acontece, e a atenção popular é dispersada tal qual os ex-pinheiristas serão espalhados para nunca mais se reencontrarem.

E no fundo é tudo mais duro que isso. Não vimos violência policial, no máximo suas consequências. Vimos só o começo de um longo sofrimento de desalojados. Nosso recorte temporal é impreciso, quase atrasado, e não é por isso que deixa de ser evidente a forma desastrada com que tudo foi feito. Nada ali está digno, e eu ainda acredito em cada violência – nem tanto mais nas mortes – que ouvimos dos moradores desde domingo.

As crianças só querem um cantinho onde haja sorriso e outras crianças, só os cachorros sabem de verdade quem mente e quem não, e a viagem de volta foi reflexiva e triste na essência da palavra. É triste. Antes do último abraço, dei duas notas de dinheiro nas mãos de Felipe Castro. Quisera poder dar as mesmas notas a cada um lá no Pinheirinho. Mas o dinheiro não é a solução. É justamente o problema.

Camilla Feltrin – Rostos semelhantes a aqueles eu só vi uma vez num velório de uma pessoa querida. É aquele choro ao ponto das pálpebras ficarem avermelhadas. Mas era só semelhante. Aquelas pessoas, além da cara de desespero acabavam de perder absolutamente tudo.

Dona Josefa, magrinha e com menos de 1,50 m, beirando os 80 anos estava alojada na igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Ela faz parte de um grupo de umas 40 pessoas que estavam em frente do que sobrou da entrada da comunidade do Pinheirinho na manhã de quarta-feira, 25 de janeiro. Os pertences deles ainda estavam lá dentro.

Ela é costureira e estava preocupada com as máquinas overloque e a reta que estavam na casa. O medo é que não conseguissem retirar os pertences antes que a casa fosse demolida. Para retirar as coisas elas precisavam de um caminhão particular, cotado por R$ 450 a viagem. O caminhão da prefeitura apenas estava transportando as coisas até um galpão. Os netos de Dona Josefa foram levados para casa de uma parente em uma favela em São Paulo. Dionísia, a filha, estava lá sem saber o que fazer e sem alguma perspectiva de futuro. Falava que era melhor se tivesse matado todo mundo, evitando, assim, um sofrimento geral.

Andreia foi parar no Pinheirinho em 2004 quando o marido foi preso. Como não tinha mais dinheiro para pagar o aluguel, ela e os seis filhos se mudaram para o terreno. Ela também não tinha mínima ideia do que fazer da vida. A outra grande preocupação dela é com a filha de 15 anos grávida de sete meses e dormindo em abrigo. Luis Carlos, um de seus genros, falou com o sotaque caipira que todo o investimento dele foi para construção da casa. Outro crash promovido por Naji Nahas. Crash de vidas e não de ações.

Um pintor de vinte e poucos anos, negro com cachos descoloridos estava revoltado por terem derrubado a casa que ele construiu aos poucos, e, principalmente, o quarto da filha pequena. “Ela vai crescer e me perguntar porque eu deixei eles fazerem isso”, falava. Ele também estava temoroso com o que fariam da imagem dele,  trabalhador, porém ainda pobre. Não era bandido, só não tinha dinheiro o suficiente para comprar uma casa ou pagar um aluguel. Ele é pobre. Ele é filho de pobres.  A filha dele também é pobre. Agora, morando numa quadra poliesportiva, são mais pobres ainda.

Esses são os recortes de dramas pessoais, que juntos com outros tantos mil se tornam um problema social. Eles precisam de mais coisa além de casa, mas moradia é o mínimo para desenvolvimento de uma pessoa.

As ruas da comunidade eram de terra batida e formada por vários tipos de casas, todas muito humildes. Umas de madeirite, outras de alvenaria. Como o terreno é gigante, as casas não são espremidas, todas tinham um quintal, árvores, plantas.

Quando estava lá, vi uma mulher juntando coisas achadas em meio aos escombros num carrinho improvisado numa caixa d’água. “‘Filha, aqui tem muito cobre, latão, alumínio…”.

Junto com meus colegas falei com o Capitão Antero, responsável pela operação. Ele explicou que a Polícia Militar planejava essa reintegração desde o começo de novembro de 2011. Disse também que os policiais são treinados psicologicamente para esse tipo de coisa. “Sempre estamos acostumados a trabalhar em eventos de grande porte, como jogos de futebol com torcidas organizadas. Aqui foi uma operação normal”, considerou.

Eu e meus colegas queríamos arrancar alguma confissão mais humana dele. Será que ele não se comovia com tanta gente miserável, idosos e crianças sendo jogados das casas para um… ginásio?

A conversa durou 40 minutos, mas poderia ser resumida em duas frases:  “Não há conversa conosco, a Polícia não é fórum de discussão. Nós obedecemos o judiciário”. O problema vem de cima. O problema é o poder na mão de gente irresponsável. Desocupam um terreno e deixa milhares de pessoas jogadas em uma quadra.

O que seria a prioridade: o direito à moradia ou o lucro da tal massa falida? A PM não precisa pensar nisso. Precisa apenas agir.

Sargento Zago que acompanhava algumas destruições de casas comentou, em meio o monte de entulhos. “Doi o coração ver mãe com filho no colo chorando. Todo mundo tem direito a ter uma casa, mas é isso que eu tenho que fazer”. Pareceu um desabafo humano dentro o homem de farda. E parece ainda que dentro de uma farda não cabe um coração. A PM não precisa pensar, sentir e nem concordar. Precisa trabalhar. Precisa agir. Precisa obedecer.

Uma vez li o termo “fantoche de sistema”, parece se encaixar nesse caso. Isso também era muito perceptível entre os sem terra: eles têm consciência de que a polícia cumpre ordens. Xingavam a juíza e o prefeito. Quanto ao dono da terra, eles tinham ouvido falar que é “parece que é de um ladrão aí”.

A ação não foi avisada e surpreendeu os moradores às 6h de um domingo enquanto todos dormiam. “O fator surpresa é estratégico e fundamental para uma ação dessas”, contou o Capitão ao explicar que se tivessem avisado previamente, a reintegração não teria o sucesso  que teve. Ação de guerra. O grupo inimigo é composto por crianças, idosos e gente trabalhadora. O front era a casa deles.

Como eu disse para o Luis Carlos, o desabrigado que queria ver minhas anotações: o caso Pinheirinho está fazendo muito barulho na internet. Espero que isso possa ajudar de alguma forma. Não sei qual, mas de alguma eu acho que ajuda.

Saiba mais

Bandidagem nacional

Se o português disse, há quase 200 anos, que “Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico” e a gente ainda lembra, arrisco que a nova frase a ser lembrada por gerações é a “Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno, porra!”

E viva ao anti-heroísmo brasileiro projetado nas telas. Os indicados para o meu Crime Awards são:

— O Bandido da Luz Vermelha. Rogério Sganzerla (1968)

Nunca vão inventar definição melhor do que “paulicéia desvairada” para descrever São Paulo e nada exemplifique tão bem o centro nojento de São Paulo como Boca do Lixo, onde se passa a história. As falas, os gritos e berros aleatórios dos personagens são facilmente decorados. O provérbio luiziano mais conhecido é o “Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculamba”, “O terceiro mundo vai explodir! Quem estiver de sapatos não sobra! Não pode sobrar!” ou as vozes radiofônicas sensacionalistas:

- As autoridades clamam PELO AMOR DE DEUS NÃO FAÇAM DELE UM HERÓI.

Não sei se na época o João Acácio, o verdadeiro Bandido da Luz Vermelha, era tão querido pelas pessoas. Ele roubava, matava e estuprava. Era um bandido de fato. O Luz, o personagem foi inspirado nele e também roubava, matava e estuprava. Os eram altos e usavam lenços na cara.

Mas não é um filme totalmente biográfico.

Tanto é que o lançamento do longa foi em 1968 e o criminoso foi preso só em meados dos anos 70. O Luz tem um final diferente do verdadeiro João Acácio que ficou 30 anos, a pena máxima, atrás das grades.

No universo real, quando João Acácio saiu da cadeia as pessoas pediam autógrafo para ele. Rolava uma confusão com o marginal do filme e bandido de fato. Morreu assassinado por um pescador (depois de tentar estuprar a mãe dele).

O Bandido da Luz Vermelha de mentira é um cara até que legal. Solta fogos. Dirige um conversível ao som de Calm the Lightning do The Who (!!!!!!!!!!!!) até a praia do Porchat e tem sua própria loira. É, porém, é um tanto infeliz e tenta se matar com tinta óleo, inseticida e afogadado onde a maré bate nas canelas.

Vai sair uma “continuação” do Bandido da Luz Vermelha com o Ney Matogrosso no lugar do Paulo Villaça. Veremos.

— Madame Satã. Karim Aïnouz (2002)

Já mencionei aqui no blog num post intitulado “A melhor cena do cinema nacional”. Eu não dava nada pelo Lázaro Ramos até ver a performance dele como João Francisco dos Santos, um transformista do começo século XX. Marginal, viado, traficante, pobre, viciado, preto e criando filhos da amiga puta. É o herói daqueles lugares que os heróis não chegam.

O Madame Satã do cinema só não é mais legal que o Madame Satã de verdade. Mesmo assim, é muito legal:

Segue parte da entrevista dele no O Pasquim, uma revista também marginal

Millôr – De onde vem a sua fama de extraordinária masculinidade? Eu sei que foi através de inúmeras brigas. Conte alguma coisa.

Eu comecei em 1928. Deram um tiro em um guarda civil na esquina da rua do Lavradio com a avenida Mem de Sá e mataram, né. Eu estava dentro do botequinzinho e disseram que fui eu. Então fui preso. Eu tinha 28 anos. Aí eu fui para o Depósito de Presos e daí para a Penitenciária e fui condenado a 26 anos. Na penitenciária, não. Na Casa de Correção.

Millôr – Segundo você, injustamente.
Injustamente.

Sérgio – Mas você não deu o tiro no guarda?
Não, o revólver é que disparou na minha mão. Casualmente.

Sérgio – Foi a bala que matou?
Não, a bala fez o buraco. Quem matou foi Deus.

Sérgio – Balas que saíram do seu revólver mataram quantos?
Bala que saiu do meu revólver só matou esse porque os outros era a polícia que matava e dizia que era eu.

— Lúcio Flávio, o passageiro da agônia. Hector Babenco (1977)

É meio pornochanchada, mas é bacana. O personagem principal era vivido por Reginaldo Faria, que passa o filme todo sem camisa e espapando espetacularmente da polícia e transando.

—  Pixote: a lei do mais fraco. Hector Babenco (1982)

Pixote é uma história ao avesso. O ator principal foi imperpretado por Fernando Ramos da Silva, menino que morava na favela Naval, em Diadema. Teve aulas de interpretação e ficou com o papel de um menino pobre jogado na Febem que no final do filme mama nos peitos da Marília Pêra :0

Na história, ele tem muitos amiguinhos mortos. Uns pela polícia outros por eles mesmos. Fernando, o ator, cresceu e fez Eles Não Usam Black Tié , umas pontas em novelas e participava do grupo de teatro da Fundação das Artes em São Caetano.

Dizem que foi preso duas vezes por roubo e porte ilegal de arma.

Com 19 anos foi morto pela Rota em Diadema e virou um capítulo no livro Rota 66, a história da polícia que mata, do jornalista Caco Barcellos. Depois, sua mulher lançou um livro chamado Quem matou Pixote? que virou o filme Pixote nunca mais.

Os fracassos

Rota Comando, de 2009, baseado no livro do Conte Lope, ex capitão da Rota. Narrava alguma peripécias da polícia paulista. Ruim. Tem também o mais underground filme do planeta chamado “Por um fio“, que nem para baixar (ainda bem) eu acho, que é o estrelado Nasi.

Cada presidente tem o rock que merece

Hoje é um dia triste. Dr. Socrátes, o atleta democrata, morreu. Inspirada nisso (e na falta do que fazer) montei uma listinha com músicas feitas direta ou indiretamente para os presidentes eleitos desde 1985.

Engraçado notar que a música do  FHC é do Planet Hemp, os maiores legalizadores do Brasil. No Lula’s Song de 1995, anterior a posse,o tom era de revolução,  e em 2006, finzinho do primeiro mandato, a rima para “revolução” era “mensalão”.

A música que mais gosto é a da Dilma, que não foi feita para ela, mas se encaixa tão bem…

-Tancredo Neves: Provavelmente o Skank tem uma, mas não tô afim de procurar./ José Sarney: Provavelmente a Pitty ou os Detonautas têm uma, mas também não estou afim de procurar.

- Fernando Collor de Mello:

- Itamar Franco: não é poético e o nome não rima com nada.

- Fernando Henrique Cardoso: ADIVINHA QUEM TÁ DE VOLTA NA PRAÇA?

 

- Lula

- Dilma:

 

É isso, quem souber de mais uma legal pode me falar.

 

O paraíso de Anita

Um blecaute  atingiu mais de 2,5 milhões de pessoas em São Paulo, principalmente na Zona Sul, numa tarde de setembro do ano passado (fiz esse texto ano passado e achei ele nos rascunhos aqui do blog). Eu fiquei uns 40 minutos ociosa no trabalho andando sem rumo na sala e bebendo água porque sem computador não dá para fazer muita coisa.  

Em 1980 a falta de energia elétrica não era uma coisa tãaao alarmante. Se a força acabasse as pessoas continuavam  felizes e digitando em máquinas de escrever. Uma fitinhazinha de carbono aqui e um sulfite ali: problema resolvido, pensei.

Anita, a encarregada pela limpeza do escritório, nasceu em em uma chácara em Boninal, no interior do interior da Bahia. A cidade, com menos de 15 mil moradores, distânte 400 km de Feira de Santana.

Ela sobreviveu sem água quente, secador, chapinha, danone, sorvete, água gelada, microondas e botijão de gás até os 18 anos, quando veio para São Paulo, naquele clichê do “ganhar a vida”. E conseguiu.

A alimentação era sofrida: matava os quadrupedes e depenava as aves. O cardápio variava de tatus à rolinhas, segundo ela. Se não fizessem isso, ninguém comia.

Desde que chegou em São Paulo, ela pode desfrutar de coisas supermodernas, tais como um elevador para subir em prédios e tomar um banho quente. Anita disse que mora no Paraíso e fica extremamente feliz em poder levar as filhas no cinema, em especial o 3D, para comemorar o aniversário delas. Realmente feliz.

O paraíso dela não é aquele bairro nobre perto da Avenida Paulista. Ela mora a beira da Cupecê  e pessoas usam drogas em frente a casa dela (na minha também, rs ). As filhas delas estão matriculadas em escolas, ela tem Orkut e acesso à internet, uma geladeira, televisores e revistas. O paraíso dela é viver bem e sem ter que caçar.


Noite da Ayahuasca

Sábado de manhã acordei e telefonei para um amigo perguntando se tinha mais um lugar no carro. Ele disse que não, mas se eu não me importasse, eu poderia ir no colo de um amigo meu. Como o conheço há bastante tempo e ele namora um outro rapaz, disse que não tinha problema algum.
Ele me alertou para levar uma saia rodada e não utilizar peças pretas, que poderiam interferir no trabalho e na captação de luzes divinas. Como minha época rockeira de 15 anos já passou há algum tempo, tinha algumas opções de roupas além do preto.
Ayahuasca é um chá feito à base de plantas amazônicas; folhas de chacrona e cipó jagube. O uso do chá é uma prática milenar para os índios da Amazônia peruana. A mistura é bastante conhecida no Brasil por conta do Santo Daime, uma seita que existe desde o começo do século XX.
A doutrina do Santo Daime Daime, o uso do chá e associação a entidades da cultura cristã, foi criada pelo Mestre Irineu Serra, um seringueiro maranhense no Acre.  De lá para cá, algumas ramificações mais urbanas, assim por dizer, foram nascendo. A maioria das novas comunidades levam o nome de “Céu” na frente. O centro do cartunista Glauco, por exemplo, se chama Céu de Maria.
Durante o caminho, os meninos diziam que tinham compreendido a vida, o universo e tudo mais depois de tomar o chá de Ayahuasca. E que uma boa definição para o ritual poderia ser “amor”. Me pareceu uma coisa boa.
Falavam de chacras, pretos velhos, médiuns, transmutação de maus pensamentos e luzes divinas. Segundo eles, 2012 vai ser um ano muito bom; um ser ascensionado vai emitir raios violetas em direção ao nosso planeta. Vamos nos banhar de luz do comandante das galáxias. Sinta inveja, Arthur Dent.
Ao todo, a turma era composta por 12 pessoas: o casal dono da chácara que ministrava o chá, um outro casal que participa há dois anos, eu e dois amigos novatos, dois rapazes que entendiam do universo, vibrações, cores e entidades espirituais e outros três que estavam ali porque o chá, cara, não dá uma brisa, dá uma ventania.
O lugar em que aconteceu o ritual era uma cabana feita de cimento azul e toras de madeiras com imagens do catolicismo, ameríndios, mesa branca, umbanda, hinduísmo e antigo Egito. A cabeça da Cleópatra me lembrou muito Scarlett Johansson.
O trabalho começou umas 20h30. Meninas sentadas em cadeiras de plástico na frente e meninos no fundo. A instrutora, a madrinha, leu uma passagem do livro de Saint Germain, o tal do ser ascencionado que vai emitir raios para o planeta, acendeu umas velas, incensos e chamou os homens para a primeira dose do chá. Depois deles, fui eu e a outra moça.
Senti uma canseira, fechei os olhos e comecei a sentir a pressão baixar. Fechei mais os olhos e comecei a suar frio. Fechei ainda mais e as pessoas estavam dançando e fazendo barulhos com maracás, um nome espiritualizado para chocalho. Abri e fechei novamente: já estava em outro planeta.
Sentei no colchonete e meu corpo se transformou no continente americano. Sem restrição com norte e sul. Eu era colorida, mas os tons variavam entre as cores de chicletes; azulzinho, amarelinho e rosinha. Narizes com rodinhas de supermercado foi uma das coisas que não me fizeram sentido algum e não compreendi até agora.
Precisei usar um dos saquinhos que haviam me disponibilizado para vomitar. Coloquei tudo para fora e deitei. É muito alucinante. Comecei a chorar porque queria desligar aquele efeito colorido, musical com cheiros aromáticos, que tenho alergia.
Percebi que a brisa passaria se tirassem o som do tomada.
Eram sete caixas de som super mega potentes ligadas no volume máximo.  Cinco só dentro da salinha que não deveria medir muito mais que 7   x3 m. A melodia das canções, que estavam gravadas num cd, era feita, basicamente, por cítaras, cachoeiras, pássaros, notas musicas fofas, borboletas, teclado repetitivo e músicas evangélicas pentecostais.
O inferno deve ser uma coisa parecida com isso. Não são sete selos do Apocalipse; são sete caixas de som.
Todos ali estavam alucinados dançando com os maracás ou apenas com cobertores, fazia muito frio. Tive medo, muito medo, mais medo e vomitei mais. Não é legal vomitar. Precisei ir ao banheiro me recompor. Enquanto lavava meu rosto, um dos rapazes disse para a madrinha que meu vômito era “bonitinho”. Apavorei, como assim alguém elogiou meu vômito? Eu realmente não estava bem e não fazia questão de ser bonitinha enquanto passava mal. Deitei de volta no colchão e tentei dormir.
Não, não posso dormir e deixar essas pessoas alucinadas ao meu redor.
Vomitei mais três, quatro vezes e queria que o som parasse. Eu só pensava nisso. As músicas vinham mais, mais altas, mais toscas, mais teclados, mais danças, mais enjoos. A madrinha veio me dar conselhos e disse para eu deixar minha mente e coração abertos para a mensagem das músicas, aos ensinamentos do universo e as palavras de sabedoria.
Eu só pensava no incomodo da porra do som.
Eu estava fora de mim, mas como deixar palavras de um tal de Saint Germain, que para mim nada mais que um time de futebol francês, dizer que era de outra galáxia e para eu deixar meu coração aberto para ele?
Sai daqui seu maluco. Não quero entrar na sua festa cósmica.
Quem era ele para pedir isso para uma menina alucinada com uma mistura de cipós e folhas da Amazônia? Eu queria tirar o som da tomada e aproveitar minha intensa esquizofrenia ou dormir para me livrar daquele desconforto.  Aquelas substâncias podem ter alterado minha capacidade de análise, mas eu sei do que eu gosto e do que não gosto. E aquela música no volume máximo não era agradável. Desliguem essa porra.
Comecei a senti meu estômago a revirar, faz parte do ritual de purificação, e tive que ir ao amendotrador banheiro algumas vezes. Ai pude compreender uma placa engraçadinha que estava na porta (“Magas em serviços transcidentais”). O tema do banheiro era Iamanjá, minha filha vá para praia e não para a privada.
Deitei no meu colchonete novamente. Desejei minha família e meu namorado e me arrependi profundamente de estar ali. Jurei para mim mesma nunca mais voltar lá e só fazer coisas legalizadas pelos meus pais; quando sai de casa disse que tinha ido fazer um trabalho da faculdade. Desliguem o som, por favor.
Eu achei aquilo uma bagunça sem fim, mas todas as pessoas estavam harmoniosamente felizes e tendo suas cosmovisões individuais. Dizem que você deve se concentrar em algum assunto que queira solucionar enquanto tem as tais alucinações. Todos estavam contentes com a situação que para mim estava sendo um  jiu jitsu emocional.
O pânico não foi em SP, foi em Juquitiba.
Começou a segunda dose. Eu estava numa situação de dar dó. Minha cabeça estava passeando pelo planeta, não queria mais, eu não queria aquele som terrível, não entrei na fila. Fiquei morta chorando na minha caminha.
“Querida, você tem que tomar é um remédio”, a madrinha me disse num tom nada amigável. Eu neguei veementemente. É como oferecer uma dose de vodka ao seu amigo que está vomitando na balada open bar. É maldade. Ela insistiu e, com todas as minhas forças que estavam no espaço sideral, eu disse que não queria mesmo e que não estava bem. Ela foi conclusiva: “Volto daqui meia hora
e você vai tomar”.
Entrei em pavor, aquilo me aterrorizou. Não queria mais. E ela tinha todo o direito de vir, me segurar, me imobilizar, segurar minha boca e me fazer tomar a segunda dose de um chá que tem um péssimo gosto de musgo com vinagre. Além de eu estar na casa dela, eu tinha assinado um termo de compromisso e lá eu me responsabilizava por tudo que acontece mental e fisicamente comigo mesma.
Fiquei com medo e pensei em coisas que me faziam bem. Relembrei algumas coisas da minha infância e só pensei muito como amo minha família e meu namorado. Eu queria fugir dali. Ervas da Amazônia são muito para mim, menina mimada da cidade grande que cresceu comendo Mc Lanche Feliz. Eu amo o asfalto. Reclamo, mas no fundo eu amo, melhor que alucinação da selva.
O pavor retornou. Aquela mulher que me pareceu Lúcifer com as sobrancelhas arqueadas ia voltar a qualquer momento. Será que ela tem uma seringa para me aplicar a Ayahuasca direto na veia?
Babei, chorei e retornei a mim mesma. Repeti inúmeras vezes: Eu Camilla Feltrin, 20 anos, jornalista, filha de Viviane e Ed e namorada de Felipe quero ir num show do Edgard Scandurra quando sair daqui. Quanto mais eu chorava mais eu vomitava e pensava na minha vida.
Estava como Roberto Zucco, com medo de esquecer quem eu sou. Isso é um tormento. A noite toda foi um tortura psicológica para mim. Pensei nos presos de Guantánamo que eram obrigados a ouvir músicas altas por dias e dias. Vou livrar a Baia dos Porcos, quando sair daqui.
O clima era agradável ao redor da fogueira. Um senhor veio me mudar do lado do fogarel dizendo que ia melhorar a distribuição de energias já que o fogo tem poderes de transmutação de mentes, sentimentos e energia. Disse um “Ah”, irônico, incrédulo, mas de quem está com a cabeça no universo de Gengis Khan e sem forças para ter uma conversa compreensível.
Os mais experientes usavam roupas superbrancas. Calças, camisetas e chinelas. Eu e a outra menina tivemos que colocar uma saia rodada por cima da calça para não ficarmos sensuais não só para os outros homens ali presentes, mas também para não seduzir divindades, energias e desejos masculinos dos espíritos.
Eu vomitei até o que não comi. Vomitei água. Vomitei biles. Vomitei eu mesma. Vomitei outra coisa que estava no meu nariz e provavelmente era o próprio vômito que tinha entrado pelo canal errado. Foi horrível. A música não parava “pai oxalá abençoai esse terreiro de Jesus”, foi repetido 18 mil vezes num ritmo de carnaval.
Deitei novamente no meu canto e passei horas relembrando minha identidade e me esforçando para aquelas palavras de mestres magos não penetrassem na minha mente. Meus pensamentos são apenas meus e eu não empresto para divindade alguma.
A chuva fazia um barulhinho tão gostoso ao cair no telhado e no matagal ao lado que não pude compreender como preferiram aquelas músicas horríveis e repetitivas. As canções não me deixavam dormir. E se estivesse tocando The Doors?
Descobri que poderia ficar sozinha na cozinha, um pouco mais distante dali. Fui e fiquei  observando a chuva. Aquela mulher com sobrancelhas arqueadas apareceu e disse que eu tinha que me concentrar nas músicas. Glauco, me perdoe, mas se eu tivesse uma arma eu teria matado aquela mulher. Eu realmente teria e sem dó. Bang!
“Querida, vamos entrar. Aqui você está fora do campo de proteção espiritual”. Como conversar racionalmente com alguém que te diz isso? Eu só queria minha cama e meus bichos de pelúcia.
Chegou a terceira dose. Recusei e mais músicas tocavam agredindo minha mente, mas pelo menos ela nem ninguém haviam me enfiando uma dose do chá goela abaixo. Em alguns momentos imaginei meu cérebro todo cortado, estraçalhado, cheio de tesouras, instrumentos cirúrgicos, sangue e gases sujos.
Depois que quase cinco horas, o ritual terminou e ela fez com que todos nos nos abraçássemos. As pessoas estavam serenas e eu sorri de alegria por aquele som atordoante ter cessado. Os outros participantes me perguntaram se eu tinha gostado, minto mal e eles eram legais. Disse que estava muito louca para ter opiniões. “Querida, não você não está louca. Você está na Força”, me corrigiu.
Fisicamente aquilo foi uma tortura. Psicologicamente foi uma cretinice. Doeu, mas até que fez bem por um lado. Me dei conta de quanto amo e sou amada pelas pessoas ao meu redor; minha família e meu namorado. Um amor que nunca tinha me dado conta do quão intenso é. Não tenho o que reclamar: eu tenho eles e uma rotina boa sem nenhum som horripilante, alto e ruim estraçalhando minha cabeça.

Atropela mas não mata

Foi preciso uma “nova” “lei” para que as pessoas dentro de uma tonelada de aço com motor percebessem que os pedestres têm prefêrencia na hora de atravessar a rua, ali na faixa, sem mortes, sem fraturas e sem sangue.

Se os motoristas não respeitarem o direito à vida (homem x homem dentro da máquina potente com lataria) são multados. Então, os motoristas paulistanos andam mais carinhosos nos cruzamentos. Param para você atravessar e não ficam businando como loucos. Pode doer no bolso. É uma conquista humanitária na base da ameaça. Na base da multa. Parece, pelo menos, que está dando certo. Acho bem perceptível essa mudança de comportamento.

A “nova” “lei” é  municipal e moro no ABC.  Aqui ainda sinto os motoristas mais mesquinhos em relação à preferência do pedestre. Engraçado como uma “nova” “lei”, que na verdade é só uma campanha, porque a lei sempre existiu, muda a mentalidade da sociedat. Vai demorar para perceberam que as pessoas tem o direito de atravessar a rua sem serem atropeladas. E que porra, a rua é espaço de todos e não só de uma máquina com óleo, parafuso e pneu.

Conversei com um cara que acha que carro é uma invenção do século passado. Acha também que os espaço da cidade não deve ser reduzido à tuneis, avenidas e duplicação de marginais enquanto a gente se espreme na super lotada linha vermelha/verde/azul/amarela.

Na Paulista, repare. O  nome das ruas que cruzam não são indicadas por placas na esquina. Você que está andando naquelas largas calçadas tem que esticar o pescoço até ali no meio da rua na placa que só o motorista tem acesso. As ruas não foram feitas para gente apenas de carne e osso. Foram feitas para carne e osso, desde que acompanhadas de um motor.

São Paulo vai explodir de trânsito. São Paulo vai explodir de metrô lotado. São Paulo vai explodir. O terceiro mundo vai explodir!

(Recomendo o Bandido da Luz Vermelha também)

Dever de cidadão

- Xandão, você acha correto roubarmos livros das livrarias?
- Não sou a favor roubar a biblioteca pública. Ela está lá, para todos nós…
- Nãaao! Eu me refiro a Saraiva e essas livrarias de shopping e tal.

Xandão levantou o indicador e foi categórico:

- D.E.V.E.M.O.S

(Não tem uma conclusão, só acho que vale o registro)

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